sábado, janeiro 21, 2006

(Crítica) Jarhead

Jarhead
de Sam Mendes
http://www.apple.com/trailers/universal/jarhead/
Site Oficial

O mais recente filme de Sam Mendes é para mim um mistério. Não sei se o considero um exerício falhado ou uma homenagem ao soldado desconhecido.

O senhor Mendes apresenta-nos Swoof (Jake Gyllenhaal), a mais recente contratação dos Estados Unidos da América para o seu exército. Vemos o seu caminho desde o primeiro dia no quartel, até ao dia em que é dispensado. Pelo meio, assistimos ao seu treino e aos seus problemas durante grande parte do filme na sua estadia no Kuwait. Como parte integrante da força americana na operação Desert Storm, Swoof passa por diversas situações, desde a mais mórbida à mais cómica e nele, vemos espelhado a confusão de uma geração que não sabe porque é que luta.

Como filme de guerra, é descaracterizado. Muitos comparam o estilo do filme aos de Oliver Stone. Contudo, vejo de certa forma, uma colagem maior a Francis Ford Coppola no majestoso Apocalypse Now. De uma forma bem simplista, pode-se dizer que a história é vazia de interesse. De uma forma bem prosaica, pode-se dizer que a guerra do filme reside no interior do soldado. E por fim podemos ainda dizer que é manifestação de desacordo do autor, contra a política Americana. O filme é para mim tudo isto, e aí reside o seu ponto fraco e o seu ponto forte.
Numa análise da personagem principal, vemos os efeitos da guerra na sua maneira de ver o mundo. Esta vai mudando ao longo do filme e chegamos ao fim sem saber o resultado desta mudança na prática. Por este facto, é possível dizer que o filme é desprovido de sentido, mas a meu ver, isto apenas acontece pela personagem funcionar como uma semi personagem tipo. Semi, pois até certo ponto vemos um ser humano único, contudo, o que assistimos é a um desbobinar de situações que mexem não com a essência deste ser humano em particular, mas com qualquer um. Esta homenagem ao soldado americano transforma-se numa experiência que pretende ser vivida pelo espectador na sala de cinema. Até certo ponto isso acontece, embora que de forma frouxa e pouco convincente. E senão empatizarmos com o "all american" Gyllenhaal, temos o bem mais interessante Peter Sarsgaard numa interpretação muito bem conseguida.
Numa perspectiva mais romanceada, vemos os males deste homem, e numa guerra onde ele não dispara um único tiro contra o inimigo, existe uma morte de valores e ideais, que pouco a pouco vão caíndo por terra. Esta maneira de ver o filme parece-me redutora e se de uma maneira geral, ele quase que o merece, podemos ver nele a dita crítica à confederação soberana americana. Contudo, desta forma caímos no fenómeno cool by association. A meu ver Sam Mendes tenta ultrapassar a crítica fácil e tenta ir um pouco mais longe. Não dúvido que muitas manifestações anti-guerra que vemos durante o filme sejam o realizador a falar, no entanto é por exemplo, na forma leve com que ele mostra um sargento (Jamie Foxx) a ensinar os recrutas o que devem dizer para a televisão que a ideia anti-guerra é melhor passada.

Sam Mendes sabe filmar como ninguém e não vale a pena duvidar do seu talento nesse campo. Existem no entanto algumas concessões que faz ao longo do filme, que o torna desprovido de sentido. Ou melhor, de propósito dúbio. As metáforas visuais que utiliza, quer estas sejam petróleo a chover ou a areia branca a surgir onde pessoas foram queimadas, dá ao filme um valor artístico elevado. O problema não reside aí.
Reside no conteúdo.
Mendes perde-se algures durante o filme e perde a objectividade ao contar a história. Não no contéudo mas na forma. O problema está na forma de aplicação e não na teoria geral. Não convence e fica aquém do que podia ter sido um filme bem interessante.
Confio ainda um dos problemas do filme no actor escolhido para dar corpo à personagem. Não convence ninguém, tem emoções vagas e raramente as tem. Como disse, Sarsgaard é bem mais convincente e mostra mais uma vez que é do actores mais interessantes da sua geração. Jamie Foxx também se redime do tenebroso Stealth. Quando lhe pedem para ter mais do que músculo ele tem e mostra que se calhar os prémios que ganhou com Ray não foram totalmente desprovidos de sentido.
Para terminar, temos uma banda sonora um pouco (bastante na verdade) fora do registo habitual de um filme de guerra. Contudo isto não é o nosso filme de explosões e por isso associo as escolhas musicais ao espírito mais provinciano (quer este seja das pradarias texanas ou das esquinas de Brooklyn) que os Estados Unidos mostram quando se incide uma luz forte.

De uma forma geral, o filme apresenta muitos pontos interessantes, mas no final de contas senti que não concretizava num resultado final e desta forma desilude. Quando quiser ver um soldado angustiado regresso ao Capitão Benjamin L. Willard de Coppola.

6/10

6 Comments:

Anonymous Andreia said...

Bolas, estamos muito filosóficos... :) O filme não é nem metade disso tudo. O bilhete só vale mesmo pelo fabuloso e eterno 'Donnie Darko'. Ainda dá para rir um bocado, principalmente com lado heróico atribuído aos americanos pela invasão do Iraque. E ainda bem que deste 6 :p

8:43 da tarde  
Blogger luis said...

como já tinhamos falado eu gostei um bocadito mais do filme do que tu. se calhar também vi coisas que não estavam lá mas mesmo assim reconheço-lhe algum mérito :)

9:06 da tarde  
Anonymous Andreia said...

Anyway, o Reis e Rainha foi melhor :)

9:12 da tarde  
Blogger luis said...

facto comprovado pela minha crítica :) que é que vemos para a semana? :P

9:20 da tarde  
Blogger Oliveira said...

Hurrah.

9:54 da tarde  
Anonymous Andreia said...

Podemos ver qualquer um, menos a 'Odete' :P

11:45 da tarde  

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